Curral Cine - Blog da Vaquinha Eugênia


A Vaquinha...

Vaquinha Eugenia critica os filmes em cartaz. E os fora de cartaz. No entanto, ela sofre de dupla personalidade. Pode discordar de si mesma. Se gosta , de 1 a 5 alfafas. Se detesta, de 1 a 5 cagadinhas.

E do outro lado da cerca...

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20.7.06
Olá, amigos...
Depois de muito tempo parado, o CURRAL virou QUINTAL!
Novo endereço:
http://quintalzinho.zip.net

posted by vaquinha eugenia 12:33 PM
Mugidos:

3.7.04
Estréia de: Perguntas da Vaquinha:

Talvez a melhor "tagline" de todos os tempos:

"Irmã, Irmã, a vida é tão certa

mas por que há sangue

saindo de sua cabeça?"

De que filme é?


posted by vaquinha eugenia 8:04 AM
Mugidos:

1.7.04
Vaca sem Tempo

Andamos vendo vários filmes mas nada de tempo para escrever. Então aqui vão algumas impressões rápidas sobre alguns dos últimos que vimos:

Coração Selvagem - David Lynch

Divertido filme de Lynch, baseado na estrutura de "O Mágico de Oz". Está tudo lá, a Bruxa má do oeste, a bruxa boa do leste, uma Dorothy pra lá de sensual, cujos orgasmos a levam "over the rainbow"... Nicolas Cage faz uma espécie de Elvis canastrão, numa excelente interpretação auto-irônica. Aproveitamos e revimos o "Mágico de Oz" original, que continua encantador, apesar de todo o moralismo...

Cotação: 4 Alfafas

Monster - Quem dirigiu mesmo?

A interpretação de Charlize neste filme divide opiniões. Nós achamos interessante a construção da personagem, mas um pouco exagerados os trejeitos de sapata. O filme até que começa bem, a relação de amor entre as garotas está bem feita, a outra atriz está muito bem no seu papel. Tudo desanda depois que Charlize se transforma numa serial killer. O filme começa a tentar justificar suas ações com um psicologismo de segunda e toda a construção inicial é desperdiçada.

Cotação: 1 Alfafa e 2 Cagadinhas

Zelig - Woody Allen

Um dos brilhantes filmes de segundo escalão de Allen. Zelig é um personagem interessantíssimo, que assume as características de qualquer um que dele se aproxime. Quando está com um médico, torna-se médico. Quando está entre negros, fica negro. Fica conhecido como o "Homem Camaleão?"e torna-se uma celebridade, enquanto tentam curá-lo no hospital de Manhattan. A grande sacada do filme é tratar a história como um documentário dos anos 20 - 40, usando inclusive recusos fotográficos e locuções típicos da época.

Cotação: 4 Afafas

Matadores de Velhinhas - Irmãos Cohen

Não vimos o original, o que talvez explique a dureza com que a crítica tem tratado este filme. A trama é muito interessante, a apresentação dos personagens coadjuvantes, no início do filme, é absolutamente genial e a fotografia tem belos momentos. No final, há um certo anti-clímax e as interpretações, especialmente a de Tom Hanks, com sua risada nervosa, incomodam um pouco.

Cotação: 3 Alfafas

Cazuza - Sandra Werneck e Walter Carvalho

O filme começa mal, com diálogos travados e a caracterização "poeta full time de Cazuza", que enche de artificialidade a primeira parte do filme. Domeio pro fim, as coisas melhoram e há mesmo uma cena antológica, quando Cazuza descobre que está com Aids. Solução puramente cinematográfica, impressionante trabalho de câmera, interpretação no ponto certo. O ator está mesmo muito bem, mas percebe-se claramente quando ele coloca sua voz sobre as músicas, talvez isso pudesse ser evitado.

Cotação: 3 Alfafas


Vimos outros filmes: Fala Tu, Garrincha, Espelho D´água, Kill Bill 2 (5 Alfafas!), etc, mas o tempo da Vaca esgotou-se...


posted by vaquinha eugenia 8:30 PM
Mugidos:

10.6.04
Aparte - Mario Handler - 2003
Histórias Mínimas - Carlos Sorin - 2003
Apaixonados - Juan Jusid - 2003


Esse post vai ao estilo do Marcelo V, para dar conta destes três filmes vistos num festival em Florianópolis. Dois deles, dos argentinos Sorin e Jusid, já estão em cartaz em algumas cidades brasileiras, graças a um acordo firmado entre Brasil e Argentina de exibição de filmes. Não dá pra saber se o filme do uruguaio Mario Handler vai ser lançado por aqui.



Histórias Mínimas é um filme muito simples, filmado quase todo em locações, seguindo três histórias paralelamente. Quase todos atores não são profissionais, o diretor utiliza moradores dos locais onde filma para construir os personagens do filme. E isso é quase imperceptível, o que denota o excelente trabalho de direção de atores feito.

Trata-se de um filme de roteiro, de pequenas informações aparentemente desimportantes que acabam ajudando a entender, mais para a frente, a motivação dos personagens. A placa do oculista que o velho não consegue ler, a falta de luz elétrica na casa da moça que vai receber o prêmio, a forma da torta que o rapaz apaixonado quer levar para a namorada e seu filho, esses detalhes vão revelando-se mais importantes e dando facetas novas ao filme.

A história que toma mais tempo na trama é a de um velho que sai de sua cidade em direção a outra, pegando caronas, para encontrar seu cachorro Malacara. O bicho fugiu de casa há três anos e foi visto por um amigo a 400 km de distância. O velho faz sua viagem e aos poucos entendemos o que realmente o move. Uma narrativa extremamente delicada, a desse "Histórias Mínimas".



Apaixonados, de Juan José Jusid, vai para o extremo oposto. Uma comédia romântica Argentina nos moldes do que se faz de pior em Hollywood. Sintam o drama: Uma mulher quer engravidar por inseminação artificial. Mas decide que o pai ideal para o seu filho é Nico, o namorado da melhor amiga. Conversa com os dois. Eles, então, decidem ajudá-la. Preparam o material necessário (tubo de ensaio e uma espécie de seringa) e vão tentar fazê-lo. Só que, inexplicavelmente, os dois vão sós, e, mais inexplicavelmente, vão para a suíte de um hotel de luxo. Aí, lá dentro, um dos apetrechos quebra e...

Bom, já deu pra entender, né? Roteiro fraco, falso drama, atuações histéricas, comédia de quinta categoria e ainda superprodução, com locações na Europa, etc. Mas o pior é o final, e aqui vai um spoiler sem culpa: O filme termina com uma montagem paralela do casamento da amiga com Nico e da moçoila em trabalho de parto. E, claro, o rapaz abandona o casamento e corre para os braços da mãe do seu filho. E ainda diz: Escolhi correr o risco. Urgh!



Mario Handler foi um dos fundadores da Cinemateca Uruguaia e hoje em dia dá aulas de cinema em Montevidéo. Faz filmes desde a década de 50 e já está próximo dos setenta anos de idade. Finalizou no ano passado esse "Aparte", filme que gerou muita polêmica no Uruguai, sendo exibido primeiro em pequenas salas, em formato digital, e só posteriormente transferido para película.

Trata-se de um documentário, todo filmado em digital, realizado apenas pelo próprio Mário. Ele filmou tudo, montou sozinho, e teve ajuda apenas na produção e lançamento do filme. Handler acompanha durante mais de dois anos, a vida de cerca de vinte jovens uruguaios. São rapazes e moças sem perspectivas, que não estudaram e não tem grana.

Nada demais até aí. O que diferencia este filme de outros documentários é a proximidade que Handler consegue ter com os seus personagens. Eles esquecem completamente da presença da câmera e agem como se não estivessem sendo filmados. Em alguns momentos, parece que vemos um filme de ficção.

Não há entrevistas, apenas o registro da vida dessas pessoas. Eles usam drogas, jogam bola, dançam, procuram comida no lixo, são presos e interrogados, sempre com a câmera registrando. Há uma cena fortíssima dentro de um reformatório de menores em que um dos garotos corta o próprio braço diversas vezes, no que parece ser um costume autopunitivo dos presos.

E há duas personagens femininas fortíssimas, uma jovem mãe que quer ter a guarda do filho e enfrenta problemas e uma prostituta, cujo irmão morre de Aids no meio do filme e é responsável pela seqüência final, uma arrepiante mistura de alegria e dor, um contraponto fortíssimo, inimaginável na ficção, entre som e imagem, um dos mais intensos momentos cinematográficos que já presenciamos. Uma porrada, esse filme.

Estava presente ao festival a produtora do filme, Pepi Gonçalves. Antes da exibição ela disse da polêmica que o filme causou no Uruguai e acrescentou que pensava que no Brasil talvez não tivesse o mesmo impacto. Errou de longe. Depois da exibição ela foi cercada pelos realizadores brasileiros presentes no festival, todos perplexos com o filme que assistiram. Tomara que chegue aos nossos cinemas, e logo.

Cotações:

Histórias Mínimas - 4 alfafas
Apaixonados - 5 cagadinhas
Aparte - 5 Alfafas

posted by vaquinha eugenia 9:37 PM
Mugidos:

26.5.04
Kill Bil - Vol 1 - Quentin Tarantino - 2003



Quase todos os textos que encontramos sobre esta primeira parte de Kill Bill giram em torna das referências pop espalhadas pelo filme. Elas estão lá o tempo todo mesmo e, quem conhece Tarantino, já vai ao cinema pronto a descobri-las. É interessante principalmente quando a identificação das referências possibilita aumentar as possibilidades de entendimento das cenas e do próprio filme. Nesse sentido, Kill Bill seria um filme para ser degustado racionalmente, poderia frustrar os que não conhecem as referências citadas, ou ao menos não deu uma lida nas listas de citações que saíram em sites e jornais.

Nem tanto, nem tanto. O filme funciona em vários níveis. Toda a parte da Noiva tentando conseguir a espada samurai, por exemplo, é uma espécie de citação genérica, vale pra quase todo filme de artes marciais, são os clichês do estilo que estão ali, resignificados pela abordagem sempre cínica e divertida de Tarantino.

A dramaticidade das situações é quase sempre esvaziada. É por isso que (quase) ninguém se choca com a violência do filme e com o sangue saindo aos borbotões ante aos golpes de Uma Thurman. Tudo é sempre muito lúdico e o espectador compra essa idéia. Talvez por isso nunca se pergunte se entre aqueles duzentos homens da Yasuka que a Noiva mata no bar ninguém teria se lembrado de trazer ao menos um revolverzinho. Está fora das regras do jogo, só vale luta de espadas, tá? Então tá.

Aquele Anime que conta a história da personagem de Lucy Liu é talvez a parte mais impressionante do filme. Uma grande sacada, delicado e cruel, explicita bastante a estética e a temática que estão sendo usadas no restante da película. Os jorros de sangue, que parecem absurdos e divertidos na parte "fotografada", são poéticos, distorções causadas pelo medo e ódio na visão infantil, na parte animada. E esta cena funciona inclusive como um contraponto àquela em que a Noiva mata a "Cooperhead" em frente à sua filha de 4 anos. A Noiva, toda ensangüentada, olha para a menina e diz que, se um dia ela quiser vingar a mãe, a estará esperando.

Outro dia, num chat, prestava atenção como estamos ficando acostumados com a não-linearidade nas informações. Vêm três perguntas seguidas, depois responde-se a uma outra lá de cima, às vezes conversamos paralelamente com uma mesma pessoa sobre dois assuntos diferentes, intercalados, etc. Essa técnica de montagem (e roteiro) que o Tarantino, usa desde o Pulp Fiction está aqui mais apurada e mais ousada. Como dividiu o filme em dois volumes, esse controle das informações tem que funcionar para o espectador apesar do espaço de tempo entre os lançamentos. Vejamos.

Aliás, o que mais incomoda em Kill Bill é essa divisão do filme em dois volumes, que é bastante broxante. Mais do que esperar pelo segundo volume, esperamos que seja lançado também o filme inteiro, com suas 4 horas, nem que seja pra gente ver só nas cinematecas. O final desse volume é até interessante, deixa muitas coisas em suspenso, mas não deu pra sair satisfeito do cinema.

Cotação: 4 Alfafas

posted by vaquinha eugenia 7:43 PM
Mugidos:

23.5.04
O outro lado da rua - Marcos Bernstein - 2004



"O outro lado da rua", primeiro filme de Marcos Bernstein, conta a história de Regina (Fernanda Montenegro), uma mulher solitária que busca algum sentido para sua vida. Ela dedica-se a pesquisar e informar a polícia sobre possíveis crimes nas proximidades de sua casa, em uma atividade voluntária pouco respeitada pelo delegado. Prosseguindo em uma investigação, ela acaba aproximando-se e apaixonando-se por Camargo, um vizinho suspeito de assassinato (Raul Cortez).

É muito interessante como as informações são apresentadas ao espectador. Um espelho embaçado indica que Regina acabou de tomar banho. Um cachorro que bebe água no vaso sanitário mostra como a personagem não consegue pensar em mais nada além do caso que está investigando, esquecendo-se inclusive de alimentar seu cachorro. Pouco a pouco, todo um contexto é construído, de maneira delicada, sem didatismos ou recursos apelativos.

"O outro lado da rua" explora um ambiente urbano e opressivo, em que personagens transitam solitários entre as aglomerações. Inseridas entre as seqüências naturalistas, algumas cenas metaforizam a evolução emocional da personagem Regina, como o momento em que todo mundo some, toda a cidade fica vazia, e a personagem vê-se perdida e só no meio de um cruzamento. Outro momento bonito é quando ela está angustiada em sua sala e todos os móveis somem, sobrando apenas ela sobre o sofá, ressaltando a intensidade daquele momento de introspecção.

O filme traz uma situação muito difícil de se tratar: o desejo sexual de um casal de velhos. Em primeiro lugar, ambos os personagens ficaram muito bem construídos, mérito tanto dos excelentes atores quanto do roteiro e das opções estéticas do diretor. Aos poucos vamos descobrindo as fragilidades e inseguranças de cada personagem, aproximando-nos deles.
Tudo acontece de maneira muito natural entre Regina e Camargo. O filme não ignora nem superestima o fato de tratar-se de uma relação entre dois velhos, com suas conseqüentes limitações e medos.

Regina abandona sua obsessão por justiça quando o vazio de sua vida é preenchido pela relação com Camargo. A sua investigação perde todo o sentido e ela não se abala depois que descobre a verdade sobre o caso. O mais óbvio seria que ela tivesse uma reação indignada, mas o filme apresenta uma opção corajosa e por isso mesmo muito bonita e coerente, com a personagem sorrindo: "tinha que ter alguma coisa errada para um homem como você gostar de mim".

Concluindo, o filme foi uma boa surpresa. Traz belas opções estéticas, trabalhando a linguagem com personalidade e delicadeza. Todos os elementos, inclusive as cenas não realistas, trabalham em função do filme, fluindo de maneira orgânica.

Cotação: 4 alfafas

posted by vaquinha eugenia 11:30 PM
Mugidos:

19.5.04
Diários de Motocicleta - Walter Salles - 2004



Pra começo de conversa, Walter Salles só filmou bem até hoje quando acompanhado por Daniela Thomas. Os dois melhores filmes de sua carreira são, de longe, "Terra Estrangeira" e "O Primeiro Dia". Assim como, por enquanto, o Meirelles fez três longas, e o único realmente bom é o co-dirigido por Kátia Lund, Cidade de Deus. Tem também o caso do irmão de Walter Salles, João, que, junto à Kátia Lund, fez um documentário do porte de "Notícias de uma Guerra Particular" e, sem ela, fica no "Nelson Freire". Gostaríamos muito de ver filmes dirigidos por Lund e Thomas, será que elas nunca vão encarar um projeto próprio? Já tá passando da hora.

Esse "Diários de Motocicleta" começa bem divertido, em clima de aventura e comédia. Guevara e Granado começam uma viagem em uma moto, saindo de Buenos Ayres, rumo à Venezuela, passando por belíssimas paisagens da América Latina, Mas, assim como a moto "Poderosa" começa a derrapar e cair quando encontra estradas com muita neve e areia, Salles não consegue resolver bem os problemas que o projeto lhe apresenta. Derrapa, derrapa, e acaba caindo.

Verdade que o diretor se propôs a uma tarefa muito difícil: filmar a gênese de um mito, o momento em que Guevara se conscientiza dos problemas sociais da América do Sul e transforma sua personalidade. E o único modo que Salles encontrou para fazer isso foi através dos diálogos, que muitas vezes soam forçados, na ânsia de mostrar as descobertas que "Che" faz pelo caminho.

Há uma exceção, que é o episódio do leprosário. Ali, Salles encontrou imagens para contar a história: o uso das luvas para tocar os leprosos, o jogo de futebol, o rio que divide as vilas onde moram os leprosos e os médicos. Se bem que, para explicitar a metáfora do rio, Salles acabou incluindo um diálogo desnecessário e didático. Parece que o diretor não confia na própria linguagem ou subestima o público. Péssimo sinal, de qualquer forma.

As outras "descobertas" de Guevara são ainda mais forçadas. Ele encontra pessoas pelo caminho que contam das injustiças que estão vivendo e chega a dizer a Granado, didaticamente, que sem armas não é possível fazer uma revolução. E vai se indignando pouco a pouco.

A construção do personagem de Guevara é complicada, e atrapalha bastante o trabalho do ator. Che é um poço de bondade e virtude, honesto até o último fio de cabelo, piedoso, praticamente um JC tropical. Quem parece estar fazendo descobertas, passando por mudanças na viagem, é seu companheiro, Granado. Este sim, um personagem multifacetado, que se relaciona com o mundo, bom para o trabalho do ator, que o aproveita muito bem. O "Che" de Salles já veio pronto, não tinha nada a aprender naquele trajeto.

É bacana a aparição do Alberto Granado real no final do filme, envelhecido, dando um tom memorial à película. Mas, para contrapor essa boa imagem, Salles fez questão de repetir, em preto e branco, todos os personagens responsáveis pela "iluminação" de Che Guevara, numa seqüência final absolutamente desnecessária.

Cotação: 2 Alfafas

posted by vaquinha eugenia 12:43 PM
Mugidos:

3.5.04
Olá todos... O nosso curral está meio parado porque estamos viajando, resolvendo alguns problemas alfafísticos. Em uma semana estaremos de volta, ok?

Vaquinha

posted by vaquinha eugenia 1:47 PM
Mugidos:

14.4.04
1,99 – Marcelo Masagão - 2004



O ponto de partida de 1,99 é muito bom. Em um supermercado,diversas pessoas, com diferentes motivações, circulam com seus carrinhos de compra. Cada um tem sua história de vida, seus anseios, seus medos, suas frustrações. No supermercado, essas pessoas compram idéias, em uma metáfora da lógica consumista de um mudo globalizado em que o tamanho da felicidade é medido pelo bolso. Do lado de fora do supermercado, os excluídos aguardam os restos.

Toda a construção de linguagem de 1,99 é radicalmente embasada no conceito inicial de crítica a um mundo chato, asséptico, desumanizado, capitalista. As opções estéticas são muito corajosas, trabalhando brechtianamente com elementos como didatismo e distanciamento. É um filme completamente autoral, bem coerente com a filmografia de Masagão.

Porém, até para se criticar a chatura, não dá para fazer um filme chato. Em primeiro lugar, a música, muito presente, é insuportável. É uma música suave colocada intencionalmente para dar um tom asséptico de propaganda de margarina. É uma idéia que dá um tom de ironia interessante, porém foi usada excessivamente.

Além disso, apesar do ótimo ponto de partida, o desenvolvimento é muito fraco. O filme trabalha com símbolos o tempo todo, mas muitas vezes tudo fica muito confuso e o espectador fica perdido. Há várias “viagens” em que não se consegue decodificar o que se quis metaforizar com aquilo.

A montagem, com problemas de ritmo, além do roteiro confuso, acabam causando desinteresse. Na sessão que assistimos, mais de 50% do público levantou-se e foi embora antes do final.

A conclusão do filme obteria impacto caso o seu desenvolvimento tivesse sido interessante. As pessoas se revoltam e, em uma ação terrorista, atacam o supermercado branco com jatos coloridos de Paint Ball. Pena que não tinha quase ninguém mais na sala para ver...

Cotação: 1 alfafa e 3 cagadinhas

posted by vaquinha eugenia 4:14 PM
Mugidos:

4.4.04
O Conde Gostou da Coisa (1974) / Onde Freud Não Explica (1971) – Ivan Cardoso

Estes são dois curtas filmados em super-8 por Ivan Cardoso na década de 70. O primeiro esteve presente numa mostra sobre os anos 70, exibida no Itaú Cultural. O segundo teve a exibição vetada na mesma mostra pelo próprio diretor.

“O Conde” é um filme que equilibra-se na fronteira entre o machismo e o feminismo. Inicia-se com um homem subjugando e carregando uma mulher em suas costas, à maneira dos homens das cavernas. Logo depois vemos várias mulheres seminuas cercando e espancando o homem, que descansava tranqüilo boiando dentro de uma lagoa. Há indicações de que tais imagens podem ser provenientes de um sonho ou de uma bebedeira, não dá pra dizer ao certo.

Se, por um lado, há o fetiche da exposição do corpo feminino, o final do filme pode ter uma leitura feminista: as mulheres afugentam o homem e uma delas assume o seu posto, descansando na água da mesma forma que o homem fazia, filmada sob o mesmo ângulo. Todo esse fluxo e imagens acontece sobre a voz de Nélson Gonçalves cantando “Tortura Mental” e uma versão orquestrada de “Vereda Tropical”.

O segundo curta, “Onde Freud Não Explica”, tem apenas três minutos e uma única cena. Dois garotos de cerca de 10 anos de idade tentam masturbar-se, mostrando-se para a câmera, durante o dia, no calçadão de Copacabana. Os meninos parecem divertir-se com a transgressão, riem, mostram a língua, divertem-se..

Seria apenas uma cena interessante, mas o filme cresce quando lemos a sinopse, escrita por Ivan Cardoso: “Documentário. Eu estava andando com uma câmera quando dois garotos começaram a se exibir para mim, para que eu os filmasse”. Acontece que alguns takes são claramente dirigidos. O filme é todo decupado e, em dado momento, um dos garotos até solta uns jatos de urina, simulando uma ejaculação. Instala-se aí uma interessante discussão sobre o ato de filmar, sobre os limites do documentário e da ficção, sobre a ilusão do real na imagem cinematográfica, etc. E é até possível pensar numa metáfora da realização cinematográfica que não se realiza por inteiro, no Brasil, simbolizada pela masturbação.

Cotação:
O Conde – 3 Alfafas
Freud – 4 Alfafas

posted by vaquinha eugenia 7:41 PM
Mugidos:

30.3.04
Ken Park - Larry Clark - 2003



Eita filminho desprezível!

Cotação: 5 cagadinhas / Cagando e Andando

posted by vaquinha eugenia 11:22 PM
Mugidos:

27.3.04
A Faca na Água – Roman Polanski – 1962



Faca na Água é o primeiro longa da carreira de Polanski. Foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 1963, junto a “Oito e Meio”, de Fellini, que levou a estatueta. O filme desagradou bastante o governo da Polônia comunista na época, por não ter “comprometimento social suficiente”. Talvez por isso, tenha sido o único filme de Polanski realizado em sua terra natal. Fora este, apenas “O Pianista” tem a Polônia entre os créditos de produção.

É um filme simples, barato, com apenas 3 atores, filmado quase todo em um barco, num lago polonês. Um casal, em um automóvel, quase atropela um jovem de 19 anos numa estrada. Acabam oferecendo uma carona para o rapaz e o convidam a passar o dia velejando. A partir daí, estabelece-se uma disputa entre os dois homens, mediada pelo personagem feminino de Jolanta Umecka.

O filme dá especial atenção a uma faca que o garoto carrega consigo. Ele está sempre a manipulando, o objeto chama a atenção do outro homem, que às vezes o pede emprestado para alguma tarefa. Sempre há a sugestão do possível de uso do objeto para algum ato de violência, o que ajuda a aumentar a tensão entre os personagens no filme.

Ao mesmo tempo em que intensifica a violência psicológica entre os dois homens, o filme cria um clima de erotização entre o jovem e a mulher. Reprimidos pela presença do marido, a relação entre os dois resume-se a raros olhares, ocultos e a pequenos gestos de carinho da mulher, protegendo-o das ações do marido.

O tratamento dado aos enquadramentos é um dos pontos altos do filme. Há sempre a construção dos triângulos visuais entre os personagens, definindo as funções narrativas a partir do seu posicionamento. Há também um recurso usado muitas vezes que é o de colocar um dos personagens em primeiro plano, servindo de moldura e comentário para a ação dos outros dois, que acontece ao fundo.

É muito interesssante o final “aberto” do filme. Depois de saírem do barco, marido e mulher entram novamente no carro e vão dirigindo até uma encruzilhada. Conversam e não sabem se dirigem-se à polícia (sim, a bomba armada por Polanski acaba por explodir) ou vão para casa. Tudo depende da interpretação que desejam dar aos fatos do dia. Antes que cheguem a um acordo, a câmera afasta-se e mostra o carro parado na encruzilhada. O resto fica para a imaginação do espectador.

Cotação: 3 Alfafas

posted by vaquinha eugenia 12:28 AM
Mugidos:

23.3.04
Edifício Master - Eduardo Coutinho - 2002



O que as pessoas foram, o que seriam, o que vão ser. Coutinho consegue dos seus entrevistados momentos de poesia intensa. Partindo de assuntos triviais a conversa sempre se encaminha para pontos-chave da vida de cada um, os momentos em que as pessoas fazem suas escolhas, decidem seus caminhos.

Edifício Master é um grande prédio de apartamentos em Copacabana, onde moram mais de mil pessoas, de todos os tipos. Algo similar com o Copam, aqui de São Paulo, ou o Edifício Maletta, de Belo Horizonte. A partir dessa massa de gente, Eduardo Coutinho vai garimpando individualidades, descobrindo pessoas.

Há uma cena absolutamente impressionante. Henrique, que passou a juventude nos Estados Unidos e conheceu Frank Sinatra, está hoje com uns sessenta e cinco anos. Seus três filhos moram nos EUA e sua mulher já faleceu. No meio da entrevista ficamos sabendo que ele identifica a própria vida com a canção "My Way", eternizada na voz de Sinatra. Coutinho, então pede-lhe para cantar a música. Henrique coloca o CD no aparelho de som e canta junto com Sinatra, emocionando-se muito.

É interessante pensar que, se víssemos apenas a cena em que Henrique canta, poderíamos achar tudo muito engraçado. Mas, depois de toda a entrevista, sabemos que estamos assistindo a um resumo emocional de uma vida, um momento absolutamente único, intenso, trágico. Quando a música termina, há um daqueles silêncios desconcertantes, plenos de significado, parece que toda a equipe de filmagem estava estupefata com a cena que acabavam de registrar.

Posteriormente Coutinho disse em uma entrevista que considerava a cena de Henrique o ponto alto do filme, e que sabia que conseguiria grande impacto se finalizasse o filme com ela. Mas acreditava que, se o fizesse, impediria a reflexão do público. Por isso finaliza o filme com uma reflexão sobre o futuro, com a entrevista da garota que acabou de mudar-se para o Master, para estudar no Rio de Janeiro.

Há outras entrevistas impressionantes, como a da professora de inglês, inteligentíssima, que não consegue encarar a câmera. Algumas pessoas na platéia riem dos seus tiques nervosos, principalmente no início da entrevista. Dá pra imaginar que ela deve ser considerada a "louquinha" do prédio. O que Edifício Master consegue fazer é pegar os estereótipos e as idéias fáceis e desconstruí-los. Transformar imagens em pessoas, encher de significados aquele monte de janelas do Edifício Master, transformar uma massa indiferenciada de gente em indivíduos riquíssimos, cheios de histórias, contradições e vida.

Cotação: 5 Alfafas

posted by vaquinha eugenia 10:04 AM
Mugidos:

17.3.04
Concorrência Desleal – Ettore Scola -2001



Dentre tantos filmes abordando a perseguição aos judeus durante o regime nazista na Itália, “Concorrência Desleal” é um dois mais simples e belos. Sem mostrar um tiro nem uma gota de sangue, o filme explora a crueldade do regime recém instaurado do ponto de vista de duas famílias, uma italiana e outra de origem judaica.

As famílias são apresentadas em um período de tranqüilidade, antes do início da perseguição aos judeus. Elas mantêm lojas vizinhas e concorrentes entre si, o que alimenta rivalidade e constante troca de farpas. A geração mais nova de ambas as famílias é responsável por estabelecer alguns vínculos amistosos, tolerados com dignidade pelo resto dos componentes. Os dois filhos dos donos das lojas mantêm um vínculo muito forte de amizade e seus irmãos, adolescentes, arriscam um breve relacionamento amoroso. O cotidiano das duas famílias é tratado, inicialmente, com muita leveza e com ótimas cenas bem humoradas.

Os sinais da perseguição aos judeus aparecem gradualmente no filme, e a relação entre as duas famílias é desconstruída e reconstruída diante da nova realidade. Todos os personagens e suas relações são estruturados de maneira complexa e verdadeira, o que é uma característica latente nos filmes de Scola. Pietruccio, filho de Umberto, o alfaiate italiano, é um dos personagens mais lúcidos e seu olhar de criança sobre a realidade traz uma indignação e uma perplexidade que torna tudo mais triste e mais terrível.

“Concorrência Desleal” discute a indiferença da sociedade italiana frente às atrocidades do regime nazista principalmente através de Umberto, que apesar de discordar radicalmente do regime, chega até a ser conivente com ele para proteger seu negócio e fica preso entre sentimentos de culpa e impotência.

Quando a família judaica está saindo de mudança para o gueto, a família italiana reúne-se na calçada para observá-los e despedir-se deles. Tudo acontece em silêncio, com muita tristeza. É a cena-síntese do filme, que soa como uma conversa entre aquelas antigas fotos de família. Só que a família judaica está totalmente desestruturada, com os móveis de cabeça para baixo. É um momento muito sério e incômodo, inesquecível. Ettore Scola, partindo de um filme sobre relacionamento, cheio de delicadezas e muita verdade, trouxe à tona um olhar atônito sobre o horror da perseguição ao judeus.

Cotação: 4 alfafas

posted by vaquinha eugenia 11:58 PM
Mugidos:

12.3.04
Peixe Grande – Tim Burton – 2003



Peixe Grande é bom pelas partes, mas nem tanto pelo todo. Estão lá os personagens esquisitos de Burton, sempre vistos com simpatia, como o Gigante e as Siamesas Vietnamitas, por exemplo. Estão lá pequenas pérolas de humor negro, como a cena do apaixonado machucado, com sangue escorrendo pelos dentes, mas feliz por ter conquistado a garota e a cena da morte do ex-noivo. É sempre intrigante quando todos na sala caem na gargalhada vendo um sujeito ter um ataque cardíaco e cair morto.

O cinema de Tim Burton é baseado na direção de arte. Todos os outros elementos dos seus filmes parecem girar em torno da construção do espaço e caracterização visual dos personagens. Neste “Peixe Grande”, essa caracterização de Burton é contraposta às imagens de uma família típica norte-americana, deixando entrever o que talvez seja sua poética: transformar a realidade, torná-la mais interessante para os sentidos, através da imaginação. Isso fica bem claro nas duas cenas de enterro, no final do filme, em que vemos os personagens reais e os imaginados.

Na primeira vez em que Edward Bloom visita a cidade de Espectro, Burton trabalha o estranhamento através da felicidade excessiva. Todos riem muito, estão muito felizes, dançam, divertem-se, e isso cria um clima extremamente opressivo para a cidade. Lembra a idéia de “felicidade compulsória” da publicidade, cantada por Tom Zé em canções como Dodó e Zezé: “- Sorrisos, creme dental e tudo, mas por que é que a felicidade anda me bombardeando? diga, Zezé. - É pra saber que ninguém mais tem o direito de ser infeliz, viu, Dodó?

O principal problema de “Peixe Grande” é que todas essas cenas interessantes criadas por Tim Burton estão a serviço de um certo escapismo, de uma tentativa de tornar a morte menos terrível através da imaginação, do sonho. Ou, mais do que isso, justificar uma vida, achar um sentido para a existência de uma pessoa. Além do mais, tudo isso funciona para reunir novamente a família, aproximar pai e filho, que estavam rompidos. Fica um gosto de conservadorismo na boca depois que o filme termina.

Cotação: 3 Alfafas e 1 Cagadinha

posted by vaquinha eugenia 9:11 PM
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Glauber Rocha
5 - Noites de Cabíria
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6 - Encouraçado Potemkim
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7 - O Grande Ditador
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8 - Alphaville
Jean-Luc Godard
9 - Ladrões de Bicicleta
Vittorio de Sica
10 - Rio Zona Norte
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